Agronegócio
PRODUÇÃO INTENSIVA DE BOVINOS DE CORTE - ANÁLISES E PERSPECTIVAS
Por GUILHERME AUGUSTO VIEIRA.

A pecuária de corte no Brasil apresentou evoluções nós últimos tempos, tanto na produção quanto na produtividade, embora no computo geral os nossos índices estejam bem abaixo em relação a países como a Argentina , Austrália e Estados Unidos.

 

Apesar de possuirmos o maior rebanho comercial do mundo, com aproximadamente 165 milhões de cabeças (Anualpec 2005), o nosso país apresenta contrastes na pecuária de corte, com áreas de excelência em produção e produtividade ,no qual produtores utilizam as tecnologias mais avançadas como FIV, contrastando com áreas de produção arcaica, no qual a simples suplementação com sal mineral é uma tecnologia inatingível.

 

Os números da  cadeia produtiva da pecuária de corte no Brasil são expressivos. Só citando a exportação de carne bovina, o nosso país exportou em 2004 U$2,5 bilhões de dólares (ABIEC, IFNP 2005).

 

A importância econômica e social do segmento carne no contexto da economia brasileira  tem uma importância significativa, segundo Corrêa (2000) , além de movimentar a indústria e a distribuição de uma gama variada de insumos, que são utilizados no segmento produtivo, a cadeia da pecuária bovina, incluindo produção, abate, transformação, transporte e comercialização de produtos e subprodutos gerados pelo boi, movimenta um grande número de agentes e estruturas, da fazenda à indústria, e ao comércio, gerando renda e criando empregos em seus diversos segmentos.

 

No entanto, a partir da implementação do Plano Real no Brasil na década de 90 , são evidentes os sinais de que os modelos de gestão e produção que vem

 

demarcando a base produtiva da pecuária de corte no Brasil dão sinais  de esgotamento pois há uma mudança no cenário político, social  e econômico  do país. Este processo de modificação foi marcado pelas motivações de mercado quando passou a imperar no cenário a demanda competitiva e processos profissionais de produção em detrimento da demanda reprimida e falta de profissionalização nos processos produtivos e amadorismo nas relações comerciais entre os vários agentes que compõe a cadeia produtiva da pecuária de corte no Brasil.

 

Se não vejamos, segundo  Nehmi Filho (Anualpec 2005), a pecuária de corte experimentou nos últimos sete anos um longo período de alta do ciclo pecuário, sustentado principalmente pela explosão de exportações. O mesmo autor enfatiza que houve uma diminuição da rentabilidade da cria, o mesmo não ocorrendo com a recria (devido às boas taxas de reposição) e a agricultura (grãos , cana e reflorestamento) . Estas atividades apresentam um período de alta rentabilidade, principalmente pela valorização do setor sucro-alcooleiro (exportações de álcool e açúcar) e mercado de soja, milho e algodão (exportações de commoditties), no qual tornaram as terras mais caras, expulsando  produtores da atividade e abertura de novas áreas para a prática da pecuária extensiva.

 

Compreender os processos de mudança do cenário produtivo e o colapso dos processos produtivos da pecuária, no qual a prática da produção extensiva e os baixos índices de produtividade ainda são uma realidade na maioria das propriedades brasileiras é uma questão estimulante que exige o ajuste de uma multiplicidade de perspectivas de análises. Sem pretender entrar ,neste texto, pela complexidade das questões que o tema provoca, procura-se recortar nele questões que permitam mapear os vários aspectos que o produtor brasileiro tem que enfrentar nas novas práticas de produção de bovinos de corte no cenário atual. Entre as várias questões que permeiam o tema em questão, analisa-se neste texto, os vários fatores que ainda travam a produção intensiva de bovinos de corte no Brasil.

 

Segundo Haddad (1995), nos países dito desenvolvidos (clima temperado), a prática da produção intensiva de bovinos de corte (leiteiros também) é uma prática normal e corriqueira devido a principalmente a aspectos estruturais como invernos rigorosos, alta densidade demográfica e os altos custos da terra. Em compensação , o produtor é bem remunerado (alto poder aquisitivo da população), há um sistema de classificação e tipificação de carcaças no qual permite uma total profissionalização da produção. Deve-se a isso também há um programa de incentivos por parte dos governos .

 

No Brasil apesar da ausência de invernos rigorosos, existência de terras relativamente baratas e de  grandes extensões, áreas com grandes excedentes de produtos agrícolas, a prática da produção intensiva é totalmente ocasional. Segundo dados do Anualpec 2005 ,dos 165 milhões de cabeças do rebanho bovino brasileiro, apenas de 6,7 milhões de cabeças são produzidas de maneira intensiva, o que corresponde cerca de 4% do rebanho nacional. Convenhamos é muito pouco. O que provoca esta baixa produção?

 

Segundo vários produtores, o investimento é muito grande nas instalações e equipamentos, além do preparo da mão-de-obra que não é adequada. Especula-se ainda que o Brasil não precisa da produção intensiva de bovinos , pois o nosso boi é orgânico, pois é produzido em grandes áreas extensivas e criado a pasto, etc...

 

Fatores altamente conclusivos quando se pratica uma pecuária de excelência. O que se nota que o nosso boi é orgânico e que a vaca louca  não atingiu o rebanho nacional devido a desvios tecnológicos, pois a grande maioria dos produtores brasileira não possui hábito de suplementar os seus animais com rações (haja vista o baixo índice de suplementação mineral que dirá a suplementação de ração). Também há fatores positivos da produção orgânica de bovinos de corte devido as grandes extensões de terras  e a existência de áreas propícias para a prática pecuária.

 

Outros fatores podem ser explicados para a baixa produção intensiva como a inexistência e desconhecimento das técnicas de produção (confinamento e semiconfinamento) além da baixa remuneração dos produtores brasileiros devido ainda há uma ausência e inexistência da aplicação de um sistema de classificação e tipificação de carcaças na maioria das áreas de produção e não praticada pelos frigoríficos brasileiros. Estes fatores desestimulam a produção intensiva no Brasil. Há esforços isolados para a produção de novilhos precoces, programas de tipificação de carcaças. Talvez com a prática da rastreabilidade (certificação de origem) , aumento de exportações e exigências de carne de qualidade, haja estímulos para aumento da prática da pecuária intensiva.

 

Conforme Haddad (1995), A produção intensiva (confinamento e semiconfinamento) de bovinos de corte apresenta inúmeras vantagens como: Redução da idade de abate, produção de carne de melhor qualidade, obtenção de bois gordos na entressafra, baixa mortalidade, retorno mais rápido do capital de giro na engorda e principalmente a redução da ociosidade dos frigoríficos na entressafra, ocasionando com uma melhor remuneração do produtor.

 

De acordo com o mesmo autor e seguindo tendências,  a viabilidade econômica da produção intensiva na pecuária de corte evidencia-se com :

 

-         Inserção em um sistema integrado de cria/recria engorda, notando-se uma diminuição do tempo de abate, liberação de áreas de pastagens para outras produções;

-         Localização em áreas de agricultura avançada, pois há obtenção de fontes para arraçoamento dos animais, barateando o custo de produção da nutrição dos animais confinados;

-         Implementação de sistemas de avaliação de carcaças, utilizando animais jovens e conseqüentemente os produtores aplacariam as tecnologias de produção com maior eficiência;

-         Melhor profissionalização na comercialização dos produtos oriundos deste tipo de produção, conseqüentemente ativando a tal sonhada aliança mercadológica na cadeia produtiva da pecuária bovina, gerando por força de mercado uma melhor remuneração do produtor.

 

 Considerações Finais

 

Institucionalizar a produção intensiva de bovinos de corte no Brasil em sua quase totalidade talvez seja uma pretensão muito grande de nós técnicos. Mas aumentar a sua taxa de crescimento, creio que seja uma alternativa viável nos próximos anos já que há inúmeras áreas de produção de grãos totalmente inexploradas para a finalidade descrita. 

 

Nehmi Filho (Anualpec 2005) e outros autores enfatizam que cada vez mais as terras existentes no país apresentam tendências para a produção agrícola, o que denota que  em vez da tradicional evidência na expansão horizontal do rebanho sobre terras virgens e baratas, seu crescimento se dará pela intensificação da atividade. Por que não integrar estas atividades ?

 

Melhorar a qualidade da carne brasileira, assegurar todos fatores relativos a segurança alimentar e reduzir custos de produção, serão os grandes desafios da cadeia produtiva da pecuária de corte no Brasil nos próximos anos. Tudo isso pode e deve ser melhorado com o incremento e o estímulo de fatores para que se implemente no Brasil a cultura da produção intensiva de gado de corte no Brasil.

 

Já quebramos vários paradigmas, por que não quebrarmos mais este. Os números são mais eloqüentes que as palavras, quando se analisam os números relativos a produção intensiva no Brasil.

 

Referências:

 

-         Corrêa , Afonso Nogueira S. Análise Retrospectiva e Tendência da Pecuária de Corte no Brasil ,XXXVII Reunião Anual da SBZ, Viçosa MG, Julho de 2000 (anais);

-         Haddad, Cláudio Maluf , - Produtividade das Pastagens in : Curso de Bovinos de Corte . Centro de Treinamento Supre Mais , Mogi Guaçú SP, 1995;
- Nehmi Filho, Victor Abou Por Onde Caminha a Pecuária Brasileira Anualpec 2005 , Editora IFNP : SP , P.14 a 23, 2005.

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